Um tipo diferente de passo de dança

Reprint Courtesy of International Business Machines Corporation, ©(2020) International Business Machines Corporation.

Esta é uma tradução do artigo”A different type of dance move”, originalmente publicado pela IBM e escrito por Justine Jablonska. Para ler o artigo original (em inglês), clique aqui.

Selectric vermelha com fontes customizáveis

“Como notas numa partitura”: é assim que começa o anúncio, de dezembro de 1973, de um acessório para registrar passos de dança na máquina de escrever IBM Selectric.  

Esse acessório foi desenvolvido pela IBM junto ao Dance Notation Bureau [Departamento de Notação de Dança] de Nova York para resolver um problema “que há muito tempo coreógrafos e professores enfrentam: como registrar os movimentos dos dançarinos rapidamente e de forma precisa, sem a necessidade de desenhá-los à mão.” 

A “abordagem científica” para registar os passos de dança toma nota do movimento do corpo utilizando sinais gráficos abstratos. 

“Os símbolos abstratos na esquerda indicam qual parte do corpo está em movimento”  – Release da IBM, 1973

A IBM apresentou a Selectric – introduzindo a typeball ou “bola de tipos” – em 1961. A typeball era uma bola de metal compacta que continha todas as letras e símbolos do teclado. A cada caractere digitado, a bola de tipos girava – tanto horizontal como verticalmente – para a posição correta, antes de bater no papel. Ela substituía as antigas barras individuais que eram alavancadas a cada clique até acertar a página. Com a typeball, a Selectric e suas versões seguintes dominariam o mercado de máquina de escrever por décadas. 

“Mais rápida… mais produtiva” – Anúncio da IBM Selectric, 1962

“A bola de tipos foi um avanço tecnológico muito interessante”, diz Charles Ditchendorf em entrevista por telefone. Ditchendorf chegou em 1966 ao setor de produtos de escritório da IBM, onde a Selectric foi projetada e produzida. “Colocaram um revestimento de metal numa peça de plástico e isso dava a ela durabilidade. Eu não lembro de nenhuma dessas ter se desgastado com o tempo”. Além de durabilidade, a typeball permitia uma flexibilidade única: ela poderia ser trocada facilmente, então usuários tinham a possibilidade de encomendar bolas de tipos com fontes e símbolos customizados. 

Ditchendorf lembra do anúncio da typeball de dança porque foi muito único. A bola tinha símbolos de Labanotation, desenvolvidos em 1920 pelo dançarino e coreógrafo Húngaro Rudolf Laban para analisar e documentar movimentos de dança. A typeball foi lançada com um manual “para que você entendesse como juntar os movimentos”, disse ele. 

A posição do símbolo indicava qual parte do corpo – braço, perna, torso – deveria ser usada. A forma indicava a direção. A sombra mostrava o ângulo de um braço ou perna. E o seu comprimento indicava a duração de um movimento. 

“Os movimentos elevados e graciosos de um ‘grand jeté’ da bailarina são registrados de maneira rápida e precisa através do uso de símbolos especiais” – Release  da IBM, 1973

“Minha aposta é que alguém importante na IBM tinha alguma relação com uma companhia de dança”, sugere Ditchendorf. “Talvez como voluntário ou membro do conselho”. Ele acredita que a IBM criou essa typeball como um serviço público. “Alguém fez um favor às pessoas que precisavam disso.” 

A peça tinha 88 símbolos diferentes, que poderiam ser combinados para formar um vocabulário de dança completo e gravar movimentos de qualquer tipo, de balé a dança moderna, dança étnica e até folk. Mas a escala de movimentos se estende para além da dança: Labanotation pode ser usada também para registro de movimentos de esporte, ciências comportamentais, fisioterapia e até operações industriais. Na época do lançamento, a typeball de dança era vendida por 18 dólares (que hoje seriam um pouco mais de 100 dólares). A nova peça juntava-se “à cada vez maior coleção de fontes tipográficas para propósitos especiais que a IBM tem desenvolvido para as atividades técnicas”, dizia o release oficial. 

“Que me lembre, eu não vendi nenhuma”, diz Ditchendorf, que também não sabe exatamente quantas foram vendidas ao todo. 

Máquina Selectric

Ele vendeu, no entanto, outros produtos especiais – uma máquina de escrever em braile, por exemplo. Ditchendorf lembra de um grande caderno verde que continha todos os caracteres especiais já desenhados para máquinas de escrever, cada um com um exemplo visual, organizado por estilo de fonte.

“Se alguém dissesse ‘preciso de algo assim’, você pegava o caderno e via se estava disponível”, ele disse. Se não, uma peça customizada seria produzida. 

Ditchendorf chegou a trabalhar com uma datilógrafa que pediu um símbolo de metragem quadrada; um quadrado com um risco no meio. “O que fazemos tem a ver com vender por metro quadrado”, ela justificou quando perguntada do motivo pelo qual precisava daquele símbolo. “Toda hora preciso digitar mt. qr.,”, ou seja, oito caracteres ao invés de um só. 

“Como fazer a máquina de escrever mais versátil do mundo ficar mais versátil”  – Anúncio da IBM, aprox. 1973

“Fui no caderno olhar e sim, nós tínhamos o símbolo”, Ditchendorf lembra. Então um engenheiro da sua equipe acrescentou na máquina da datilógrafa, que ficou muito grata. 

Ditchendorf eventualmente saiu do setor de produtos de escritório e trabalhou em outros departamentos da IBM, incluindo a matriz da empresa. Lá, ele diz, “fez parte da equipe que tirou a IBM do mercado de máquinas de escrever e a colocou no mercado de computadores”. “Um belo desfecho”, resume.

Ao longo de todos os produtos e mudanças da IBM, Ditchendorf nota que um dos maiores concorrentes da empresa foi a resistência das pessoas à mudança: testemunhou isso em primeira mão com a passagem de máquinas de escrever, copiadoras, impressoras. Como vendedor e, mais tarde, gerente, uma de suas responsabilidades era educar o consumidor sobre as mudanças acontecendo e sobre as outras que viriam. 

“As coisas sempre mudam, não é mesmo?”

Selectric vermelha e sua typeball

Recentemente, ele conta, um dos seus netos comprou uma máquina Selectric. 

“Ele teve que cobrir a oferta do cara que ofereceu 50 centavos. Pagou um dólar por ela.”, diz. “E ainda funciona.”

Breve história da manícula

Esse texto faz parte de uma parceria entre a Plau e a Ubu Editora. Siga nosso Instagram e o da Ubu para não perder nenhum conteúdo dessa colaboração.

Praticamente todos os símbolos utilizados no alfabeto latino não possuem significado algum fora da comunicação verbal. Por exemplo, uma letra A só tem significação para nós porque nós conhecemos o fonema A e o fato de que ele serve para nos comunicarmos verbalmente. Do mesmo jeito que um ponto de interrogação só é reconhecido por nós porque sabemos que ele serve para construir uma pergunta. Esses símbolos até representavam uma imagem na sua origem histórica (essa, aliás, é uma longa conversa para outro texto), mas acabaram sendo desenvolvidos em formas de sentido próprio, não pictórico.

Existe, porém, uma exceção. Um símbolo que nasceu como pictórico e permanece pictórico até hoje: a manícula. Talvez você não a conheça por nome, mas certamente já a viu por aí. Ela que também é conhecida como “index”, “punho”, “indictorium” ou, simplesmente, “mão apontando”. Esse último não poderia ser mais didático. Manícula nada mais é do que a representação tipográfica de uma mão apontando. 

Fonte: Provenance Online Project / Rare Book Cataloging at Penn

Estima-se que as manículas começaram a ser popularizadas no século XII, mas tiveram seu auge no período do Renascimento (XIV – XVI). Elas surgem tanto como forma dos escribas ressaltarem passagens relevantes no livro como recurso dos próprios leitores, como forma fazerem (geralmente a lápis) anotações nos livros durante a leitura. 

Fonte: Provenance Online Project / Rare Book Cataloging at Penn
Fonte: Provenance Online Project / Rare Book Cataloging at Penn

Sim, parece esquisito que alguém pare sua leitura para desenhar uma mão na página – às vezes, até bem detalhada -, coisa que hoje resolveríamos com uma linha ou um asterisco. Mas era exatamente isso que acontecia. O pesquisador William Sherman, no artigo “Toward a history of the manicule” (“Em busca de uma história da manícula”, em tradução livre) sugere que é possível que “[…] depois da assinatura e do monograma, a manícula era o símbolo mais pessoal que um leitor poderia desenvolver e utilizar”. Ela era uma forma de distinguir os livros e povoar a marginália (margem do texto; espaço para anotações) com uma marca individual de quem o lia.

Fonte: Provenance Online Project / Rare Book Cataloging at Penn

É a partir desse hábito, então, que ela vira um símbolo tipográfico e passa a ser adotada amplamente em impressos, só que de forma muito mais contida do que as manículas manuscritas, mais criativas e orgânicas. Com a tipografia, a tal da “mão apontando” passa a ser usada como um sinal de pontuação, geralmente para indicar uma nova seção no livro. Mas também poderia ser usada como indicativo de um novo parágrafo ou mesmo como forma do editor ou escritor realçar um trecho importante. 

E mesmo com a “oficialização” das manículas pela tipografia, as manículas manuscritas continuaram existindo. Ou seja, era possível encontrar um mesmo livro com manículas impressas no texto e manículas desenhadas à mão pelo leitor nas margens do texto. Segundo Keith Houston, no livro Shady Characters: The Secret Life of Punctuation, Symbols, & Other Typographical Marks: The Secret Life of Punctuation, Symbols, and Other Typographical Marks, “Manículas impressas e manuscritas encontravam-se em lados opostos da batalha, cada uma utilizada por um campo diferente para defender suas próprias pautas”. 

No século XIX, as manículas perdem sua força nos livros (infelizmente, sem volta) e passam a virar elemento de sinalização, publicidade e cartazes. Dá para entender seu sucesso como elemento display(para títulos, não para textos) de comunicação: é uma ferramenta mecânica (tipográfica) mas que representa um elemento humano. Talvez seja, inclusive, o símbolo tipográfico mais universal. Afinal, quem não entende o que é uma mão apontando? 

Fonte: Centraal Museum Utrecht

Hoje em dia, as manículas ainda são encontradas em várias fontes tipográficas, mas seu uso já não é mais tão popular. Isso não significa, entretanto, que ela não tenha deixado legados. Aliás, você certamente usa sempre os netos da manícula: o cursor do mouse e os emojis backhand index pointing rightbackhand index pointing leftbackhand index pointing upbackhand index pointing down.