A política da letra gótica

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Assim como qualquer tipo de produção cultural, a tipografia carrega consigo uma dimensão política que é indissociável da sua história. Dentro do campo tipográfico, o estilo no qual podemos ver essa dimensão mais explícita – ou, pelo menos, mais próxima de nós – é o que conhecemos em português como “gótico”. Há uma debate sobre qual o termo mais adequado para esse tipo de letra, mas geralmente, em inglês, é referido como “Blackletter” ou “Old English”; cuidado com o termo “Gothic”, em inglês, que geralmente – na tipografia – tem um sentido praticamente oposto ao sentido do termo em português. Esses termos designam um grande grupo, formado por estilos individuais como Fraktur, Rotunda e Textura. Mas esse papo fica para outro texto; aqui não vamos diferenciar os subgrupos e usar mesmo os termos gerais gótico ou blackletter

A história política das letras góticas está intrinsecamente ligada à Alemanha, mas não foi lá que elas surgiram. Especula-se que esse tenha sido um estilo caligráfico desenvolvido na França no Século XII (LOXLEY, 2004). A partir da França, foi espalhado por toda Europa e adotado como o estilo de escrita mais comum. Lembrando que aqui estamos falando de um momento pré-imprensa e daí é que vem a explicação da popularidade da blackletter. 

Para os escribas da época, ela era duplamente eficiente: primeiro, por serem formas mais estreitas que as romanas, as letras poupavam espaço na página; segundo, o desenho era mais fácil e mais rápido de ser feito, porque era composto basicamente de traços retos. A funcionalidade das letras era tamanha, que os escribas poderiam primeiro desenhar todas as hastes verticais de uma frase e depois acrescentar as serifas e os traços que individualizassem cada uma das letras (MEGGS, 2009). 

O pesquisador Ladislas Mendel (2006) defende que reduzir o uso das góticas à funcionalidade é impreciso e que isso deixa de lado a expressão social e psicológica do espírito da época, mas ele não deixa muito claro quais seriam as condições psicológicas da época que foram externadas nessa forma caligráfica específica. De toda forma, é importante ter em mente que a funcionalidade das letras é apenas a explicação mais pragmática do fenômeno sobre o qual falamos. 

Quando a imprensa surge na Europa, no século XV, a escrita gótica ainda era a mais popular no continente e, por isso, as primeiras fontes do mundo era góticas. Por consequência, os primeiros livros impressos do mundo foram impressos com letras góticas, como a famosa Bíblia de Gutenberg.

Fac-símile da Bíblia de Gutenberg

Blackletter e a Alemanha

Com o advento do período renascentista, a partir do século XVI, a Itália inicia um movimento de redescoberta das artes plásticas e da literatura da antiguidade. Esse movimento trazia junto consigo a escrita romana. A partir daí, o alfabeto romano vai retomando sua posição como escrita dominante, a começar pelo sul da Europa, sendo seguido pela região norte. Lá pelo século XVIII, o estilo gótico já tinha caído em desuso na maior parte do continente. 

Um país, entretanto, se mostrou resistente à mudança. Ao mesmo tempo em que a Itália resgatava os valores da antiguidade e, portanto, a Igreja Católica também incorporava esses valores, a Alemanha era berço da reforma protestante. Como a Igreja Protestante tentava fazer uma oposição à Igreja Católica, o alfabeto romano não poderia ser adotado para as publicações protestantes, que se tornavam maioria no país naquele momento, graças a Martinho Lutero (99% invisible). Assim, a Alemanha continuava produzindo livros com fontes góticas, na contramão da Europa.

 A motivação inicial para manutenção das góticas no país foi religiosa mas, ao longo do tempo, essa foi tornando-se uma questão de identidade nacional. Sendo o único país que adotava predominantemente esse tipo de escrita, a Alemanha passou a enxergar o alfabeto gótico como um elemento próprio da cultura germânica. 

Em algum momento isso foi virando um problema. A escrita gótica dificultava a internacionalização dos textos alemães e era um obstáculo à comunicação alemã com outros países onde, a essa altura, o alfabeto gótico era considerado ilegível e ultrapassado. Mas a rejeição da escrita gótica demorou a acontecer. Apenas no começo do século XX é que o alfabeto romano passou a ser mais adotado na Alemanha que o gótico. 

Tipografia nazista?

Não foi por muito tempo que o alfabeto romano conseguiu dominar sozinho o cenário da tipografia alemã. O partido Nacional-Socialista chega ao poder no período entreguerras e promove um resgate das fontes góticas, enxergando-as como um elemento de identidade nacional e parte do espírito da suposta raça ariana, que eles diziam existir. 

No entanto, em 1941 o partido emite um decreto proibindo o uso das blackletters e tornando o alfabeto romano como padrão para o país. A justificativa oficial foi a de que o desenho gótico seria uma criação judaica (não existe nenhuma evidência que sustente essa hipótese). Há algumas versões para o que teria motivado essa mudança repentina. A primeira diz que Hitler pessoalmente não gostava desse tipo de fonte. Também especula-se que Goebbels, ministro da propaganda nazista, se interessava pelas tendências modernas de comunicação já desde alguns anos antes da emissão do decreto. 

Independente da preferência pessoal dos líderes do partido, o fato é que essa mudança fazia sentido com o projeto de dominação mundial da Alemanha. Primeiro, pessoas de outros países tinham dificuldade de ler o alfabeto gótico, ou seja, era um obstáculo à dominação das nações que a Alemanha invadia durante a Segunda Guerra. Segundo, porque o momento era de industrialização, desenvolvimento e elaboração de um projeto de país ligado ao seu tempo, valores contraditórios a símbolos ligados exclusivamente à tradição, como é o caso das letras góticas. 

A fonte que deveria simbolizar essa mudança era a Futura (PATER, 2020). Naquela época, recém-lançada, ela era a expressão do que havia de mais novo no design. Inaugurava uma era de racionalidade e geometria no desenho tipográfico. A Futura foi desenhada pelo designer Paul Renner justamente com a intenção de ser a tipografia dos novos tempos, da modernidade. Por isso, fazia todo sentido para representar a “nova fase” do partido Nacional-Socialista. Porém, a essa altura, a Futura já era uma fonte internacionalizada e a ligação com o nazismo não foi tão forte no seu caso. Além do mais, a associação entre nazismo e blackletter já estava feita. 

Ainda hoje, a forma mais comum de representar o nazismo é usando blackletter. O motivo é óbvio: quando falamos hoje de nazismo, falamos sobre a crueldade que o sentimento nacionalista foi capaz de desencadear na época, não sobre a visão “moderna” que esse projeto de poder tinha de si mesmo. 

Naturalmente, não existe nada de intrinsecamente “nazista” nesse tipo de letra. Como já vimos, essa escrita nem inventada na Alemanha foi. O que existe é uma associação histórica entre o alfabeto gótico e o nacionalismo alemão. E símbolos nacionalistas são a base dos regimes fascistas, então podemos dizer que essa associação é bem direta, por mais que as letras góticas tenham sido abandonadas em algum momento pelo partido Nacional-Socialista alemão. 

Outro fator que incentiva essa associação é que, ao longo do tempo, os alfabetos góticos foram ganhados significados visuais que, de uma forma ou de outra, combinam com os significados históricos do regime nazista. Por exemplo, as letras góticas não são o que chamaríamos de simpáticas, não são receptivas, são imponentes, impositivas, denotam poder e, muitas vezes, carregam uma aura de obscurantismo, de valores ultrapassados. Em outras palavras, se tivéssemos a tarefa de escolher uma fonte que personifica a ideia de “mal”, provavelmente escolheríamos uma fonte gótica. 

Ao mesmo tempo, podemos pensar que se essa mesma tarefa nos pedisse para escolher uma fonte que resumisse a Igreja Católica, por exemplo, é bem possível que a resposta fosse a mesma. Nesse caso, não pela ideia de mal, mas pelo sentimento de tradição e respeito que as góticas também evocam. Certamente, esse é um dos elementos gráficos mais contraditórios que existem, cheio de significados particulares, mas também aberto o suficiente para representar valores opostos. 

A gótica hoje

O uso das fontes góticas certamente não está limitado às grandes instituições, como partidos políticos e igrejas. Pelo contrário, seus usos “mundanos” são muito mais diversos do que o que conseguimos registrar. Por exemplo, com certeza você já viu alguma tatuagem usando alfabeto gótico. Também já deve ter ouvido um álbum de rap ou metal cuja capa utiliza uma dessas fontes. Jornais e marcas de bebida são outros usuários recorrentes das blackletters. Ou seja, as góticas não estão presas entre o mal nazista e o celestial cristão. O uso delas é muito mais diverso do que é possível registrar. Não só isso, mas o desenho de novas fontes góticas continua acontecendo e diversificando a linguagem delas, para além do que conhecemos como a blackletter tradicional.

Fontes:
LOXLEY, Simon. Type: The secret history of letters. I.B. Tauris: 2004.
MENDEL, Ladislas. Escritas, espelhos dos homens e das sociedades. Rosari: 2006.MEGGS, Philip. História do design gráfico. Cosaf Naify: 2009.
PATER, Ruben. Políticas do design. Ubu: 2020.99% Invisible. “Fraktur”(Episódio 390): https://99percentinvisible.org/episode/fraktur/Vox.
The font that escaped the Nazis and landed on the moon: https://www.youtube.com/watch?v=SaX_PwxSh5M
Netflix. Abstract: temporada 2, episódio 6,“Jonathan Hoefler: Design tipográfico”.

Valter Vinícius Costa é formado em Comunicação pela UFRJ. Devorador de tudo o que é tipográfico.