Fontes Custom da Nike na Copa do Mundo 2018

Enquanto pela Adidas todas as seleções patrocinadas são identificadas por uma tipografia em comum, a maioria seleções da Nike se apresenta individualmente nos nomes e números de suas camisas.

Com isso a Nike mostra como é possível construir o design particular de sua marca e ainda assim representar individualmente cada um dos times.

Mais do que no futebol de clubes, não faz muito sentido que as seleções sejam representadas pelo mesmo design. O propósito do torneio é justamente enaltecer as particularidades de cada nação e submetê-las a uma disputa saudável. Não é o caso em 2018, mas imagina Argentina e Inglaterra usando uniformes exatamente iguais, a não ser pelo escudo e cores? Ou caso Rússia e Estados Unidos se enfrentassem em campo com a mesma linguagem visual vestindo seus jogadores? Poderia até passar quase despercebido, mas ainda assim pareceria errado.

Ou seja, obviamente sempre apoiamos fontes customizadas, mas o caso é ainda mais notável quando falamos da Copa do Mundo, já que cada um dos alfabetos serve (ou poderia servir) como um dos elementos de representação de um país inteiro. Nesse quesito, ponto pra Nike.

Mas nem tudo são flores, então o primeiro porém dessa história é que nem todas as seleções da Nike possuem o privilégio de ter uma fonte personalizada. O segundo é que mesmo as que possuem, podem até ser os melhores times do mundo, mas dificilmente as tipografias serão. Algo como “essa é a fonte que precisamos agora, mas não a que merecemos”.

A começar, é claro, pela fonte canarinho. O Brasil é uma das seleções da Nike com alfabeto exclusivo e ele não é nenhum Neymar (mas também não é nenhuma fonte da Adidas, sejamos justos).

É difícil definir exatamente que efeito ou referência a Nike queria alcançar com essa fonte, mas certamente envolvia numerais bem chamativos e memoráveis. Além do desenho em si dos caracteres, os números ainda são marcados por um padrão de formas que segue os que são usados na camisa pré-jogo da seleção.

Se a ideia é boa, a execução é, no mínimo, esquisita. A maioria dos números é formada de formas básicas que são repetidas. Por exemplo, a metade inferior dos números 2 e 3 são iguais, porém espelhadas. O mesmo vale para o 5. O 7 tem uma estrutura muito parecida com a do 2 – podendo inclusive causar confusões entre um e outro. As contraformas do 6 e do 9 são – mais uma vez e por falta de palavra melhor – er, esquisitas. O 1 possui um corte horizontal praticamente imperceptível, no meio termo entre existir, mas ao mesmo tempo dificilmente ser notado.

As letras também imprimem formas triangulares, mais perceptíveis nas letras R, P e B. Não é exatamente a construção mais harmônica do mundo. O bojo e a perna do R, por exemplo, parecem conflitantes.

Os contraste das letras também são irregulares. As hastes do N parecem mais finas do que qualquer outro traço da fonte. Por outro lado, o M parece mais pesado que a maioria das letras. Já o W possui uma massa de preto concentrada na sua base que a fazem destoar do resto dos caracteres. Para uma fonte que será lembrada para sempre como a que estampou nosso sexto título, deixa a desejar.

Classificação: A “amarelinha” tipográfica é digna de oitavas de final e tá de bom tamanho


Quem acompanha a Copa do Mundo sabe que em geral as novidades no design futebolístico são levadas pelos kits das seleções africanas. Em 2018 não foi diferente. Além do carisma da seleção e da possibilidade de eliminarem a Argentina, a Nigéria ganhou muitos torcedores no Brasil pelo seu uniforme, considerado por muitos como o mais bonito do mundial. Também pesou, é claro, o estilo incrível dos jogadores nos trajes de pré-jogo.

eTeBO

Eliminados na primeira fase, a Nigéria pelo menos foi campeã do título de Estilera da Copa
Eliminados na primeira fase, a Nigéria pelo menos foi campeã do título de “Estilera da Copa”

Felizmente, a seleção mais querida da Copa também ganhou a chance de ter seus nomes e números escritos em letras exclusivas. Será que elas estão à altura do naipe dos jogadores? Mais ou menos. Como não poderia deixar de ser, a fonte da Nigéria é muito bold, pra dar conta de toda essa presença da seleção.

A tipografia é uma unicase, ou seja, mistura desenhos de minúsculas e maiúsculas numa mesma altura. Por isso que no nome ETEBO a letra “e” tem a estrutura de uma minúscula, mas na altura das outras letras. Isso acontece também com a letra “a”, como em Iheanacho. Em geral fontes unicase possuem um aspecto “brincalhona”, por sua irregularidade quase infantil. Uma referência ao “joie de vivre” que normalmente associamos com países africanos? Provavelmente sim. É uma escolha arriscada, porque pode causar estranheza na leitura dos nomes do jogadores (que durante o jogo deve sempre ser rápida). Além da velocidade do jogo, também pode ser atrapalhada pelos detalhes que já existem no desenho da camisa.

Tanto as letras como os números possuem cortes diagonais em algumas terminações (uma solução um pouco preguiçosa pra dar a impressão de dinamismo ao design). Só não dá para entender o critério desses cortes: por exemplo, por que o 1 e o 7 se livraram dessa? E porque o G recebe o corte nas dua terminais e o C apenas em uma?

Como se não bastasse a camisa colorida, o alfabeto unicase e os caracteres rasgados na diagonal, os números ainda possuem o inline (o traço no interior dos numerais), que se repte em quase todos os kits da Nike. E como se não bastasse o inline, eles não seguem o desenho das letras: enquanto os cantos dos números são arredondados, os inlines são irredutivelmente retos.

Dá pra dizer que a tentativa de transmitir a paixão e a presença marcante da Nigéria na Copa pelas letras é boa, mas o acabamento é frouxo.

Classificação: com muito pesar, pois gostamos muito da Nigéria, temos que dizer que a fonte deles fica no máximo na fase de grupos.


Outra seleção que não fica pra trás em estilo e que ainda por cima tem boas chances de ser campeã é a França, então a tipografia tem que dar conta dessa responsabilidade. Na Copa de 2014 os kits franceses contavam com uma versão da clássica Avant Garde Gothic (leia no design boom) e para 2018 a mudança é grande, mas ainda mantém a proposta de representar a elegância do time.

O alfabeto parece ter uma inspiração art déco clara, um tanto francês da parte da Nike. Letras estreitas ornadas com alguns traços bem largos, como as contraformas dos numerais (principalmente o 3 e o 5). O fato de serem estreitas possuem uma vantagem clara em camisas de futebol, onde o espaço é limitado, apesar da França costumeiramente não ter jogadores como nomes muito longos.

O que mais sobre as letras? Muitas pontas! Algumas terminações são tão finas que até somem, como o A, M, N e V. O 2 também por pouco não some dentro dele mesmo e vira um 9. Aqui o inline cai melhor do que no caso da Nigéria, já que tanto os numerais como o fundo das camisas da França possuem menos detalhes.

Com uma personalidade forte, os numerais funcionam bem. As letras poderiam funcionar também com alguns ajustes, especialmente no M chifrudo.

Classificação: essa fonte é aquele time ajeitadinho mas que todo mundo sabe que não vai lá muito longe: quartas de final pra ela e não se fala mais nisso.


O melhor jogador do mundo liderando uma seleção esforçada, porém sem muito brilho além do seu craque.

Como a Nike resolveu escrever o nome de CR7 na Copa do Mundo? Ah, e dos seus outros 22 companheiros também, claro.

Para Portugal a Nike resolveu apostar no simples sem ser monótono. Um acerto.

Boa legibilidade, quase zero contraste, desenho claro e direto ao ponto. Assim como Ronaldo, que ao longo da carreira foi deixando as firulas de lado e agora é mais mortal do que nunca: cada toque na bola é uma chance de gol.

Claro que guardamos a polêmica para o final: embora o 7 seja bem desenhado (é o mais importante neste time, afinal), outros números chamam atenção negativamente. Veja o 6 e o 9: o interior é enorme e a perna parece que foi cortada antes de chegar ao fim, muito curta. O 2 tem um cabeção desproporcional. O 3 parece levemente esmagado (e possui no meio um detalhe em losango que não existe em nenhuma outra forma da fonte). O interior do 5 é gigantesco; parece significantemente mais alto que os outros números (junto do 7). O 1 leva uma sobra minúscula na ponta, parece um erro da gráfica na impressão e que nós mesmos temos que arrancar à mão.

Como Portugal na Copa, a fonte poderia ir muito longe, mas na hora H decepcionou.

Classificação: muito esforçada e surpreendendo a todos (como o próprio Portugal campeão da Eurocopa 2016), essa fonte não é uma máquina, mas é eficiente, chegando na semifinal.


A fonte de Portugal lembra (pelo menos a simplicidade, sem muita invenção) da fonte “genérica” da Nike para a Copa, que serve para as seleções que provavelmente a empresa julgou que não mereciam uma fonte exclusiva. São elas: Austrália, Arábia Saudita, Coréia do Sul, Croácia e Polônia.

Se Portugal já era uma aposta no seguro (nas letras, não nos numerais), aqui mais ainda. De todas dessa lista, provavelmente é a fonte com as melhores proporções e melhor legibilidade. É um pouco sem graça? Sim, é um pouco sem graça. Porém bem feita. Isso é particularmente importante para países como a Polônia, que não podem se dar ao luxo de abrir mão da legibilidade quando se tem um jogador chamado Błaszczykowski no time. Mais uma vez o inline marcando a identidade da própria Nike cai bem nesse caso.

Classificação: O time recheado de bons jogadores das melhores ligas do mundo e vai longe: chega na final. (Perdeu o título por não ser exclusiva de uma seleção específica)


A última fonte da lista e a que recebeu mais atenção da Nike é a da seleção inglesa. A única que podemos saber quem desenhou: Craig Ward, designer inglês. E também a única que possui variações de estilo.

Nosso pitaco é que o efeito nos números é bonito à curta distância; à média distância faz parecer que os números são frágeis e a longa distância é imperceptível. Mas o próprio designer explicou todo o projeto no site da AIGA Eye on Design (clica aqui pra ler).

## Classificação: Por ser bem específica para a seleção e pela beleza do desenho, a Inglaterra leva o título da Copa tipográfica da Nike.

É claro que se a máxima diz que “futebol é futebol”, também diz que “tipografia é tipografia”, ou seja, um reino sem verdades absolutas. Por isso sinta-se livre para discordar da nossa classificação.

Tipograficamente, esperamos uma copa do Qatar muito melhor do que a que vimos na Rússia. Não basta que as marcas façam fontes customizadas, é preciso que entendam sobre desenho tipográfico e que encontrem experts no assunto para criarem grandes projetos, tão inesquecíveis como o próprio evento.

Válter Vinícius Costa é formado em Comunicação pela UFRJ. Devorador de tudo o que é tipográfico.