Refinando logotipos – transformando um logotipo super ruim em Superbom

Não tem nada pior pra nós designers do que encontrar um logotipo em sofrimento. Curvas mal desenhadas, erros básicos de construção, fontes mal escolhidas e espacejadas. É o fim. Opa, calma aí. Não é o fim não!

Lettering e desenho tipográfico para salvar o dia

O logotipo original da Superbom tem falhas graves de desenho. O selo comemorativo deixa o leitor confuso: 20 ou 90 anos de empresa?

Encontrei hoje o logotipo da Superbom, uma das “maiores empresas no ramo de alimentos saudáveis voltados ao público vegano/vegetariano do Brasil.” – palavras do site da empresa.

A empresa me despertou interesse. 90 anos de história com um logotipo de letras conectadas (script) desenhadas como se fossem feitas com um pincel – pouco convencional para o mercado brasileiro. Ao observarmos detalhadamente, os problemas de construção do logotipo aparecem. Eis os principais que encontrei:

  1. A inicial S é a forma mais bem resolvida do grupo. Mas as letras subsequentes não parecem ser filhas delas. Sendo honesto, nem primas distantes. Cada letra foi criada sem o conjunto em mente.
  2. Inconsistência no ritmo das formas e contraformas. Balancear as partes preenchidas com as vazias faz com que o logotipo fique mais agradável e o ritmo de leitura mais consistente. Mudanças deste ritmo devem ser deliberadas e intencionais. Não é o caso aqui.
  3. Inconsistência de angulação: erro bem comum ao desenharmos itálicas.
  4. Os contrastes – diferenças entre as partes finas e grossas das letras – desrespeitam a lógica de um desenho feito com pincel. Pra resolver isso o designer deveria se familiarizar com um pincel, empunhar um e aprender a manuseá-lo. Mesmo um conhecimento mínimo já ajudaria a evitar desastres.
  5. Construção digital/geométrica. No caso de logotipos com estilo manuscrito, o computador é um grande inimigo, uma vez que ele facilita o demais o desenho com suas formas básicas pré-prontas. Para manter o efeito ao máximo, é preciso ignorar o computador e construir as formas de maneira orgânica manualmente.
  6. Inconsistência de terminações: de novo resultado de não experimentar e observar o pincel em ação.
  7. Letra o com formato estranho, lembrando um G maiúsculo
  8. Inconsistência total na altura de x, linha central e linha de base. Ao construirmos letras como estas, devemos ser conscientes da linha horizontal imaginária que atravessa o meio das minúsculas. O quique de cada letra gera movimento e confere graça à silhueta da palavra.
  9. Terminação da letra m sem brilho. Deu preguiça de finalizar o logotipo, né? Aprendi com o Ale Paul que um lettering bem executado é como uma boa história, deve ter início, meio e fim bem demarcados. Não foi o caso aqui.

Mãos à obra

Para demonstrar o processo de refinamento, fiz o que penso em fazer toda vez que pinta um monstrão como esse na minha frente: redesenhar.

O primeiro passo foi decidir qual caminho gráfico tomar. Optei por seguir o estilo da letra S, com terminações de pincel pontiagudas. O contraste da maiúscula segue uma linha diferente das demais. Optei por manter o contraste invertido (grossos nas partes horizontais da letra). Esse estilo é comum em lettering inspirado em pincel. A letra S isolada é usada como avatar nas redes sociais. Precisamos, portanto, considerar a familiaridade atual dos consumidores com essa letra-símbolo.

Cada letra foi construída considerando o desenho original – espacejamento, largura total do logotipo os pontos de melhora identificados no diagnóstico inicial. Apesar de todo feito digitalmente, em diversos momentos peguei um pincel para eliminar possíveis dúvidas de onde vão os contrastes, orientação das partes pontiagudas – a letra m sofreu bastante alteração da 1ª versão para a última.

A cada nova letra, revisei as anteriores, tomando decisões e ajustando de acordo. Descartei as terminações arredondadas em prol de pontiagudas, ajustei os pesos e contraste.

No final, desci um pouco a letra S para equilibrá-la melhor com o “uperbom”

O resultado final

Resultado depois da cirurgia tipográfica

Procurei redesenhar este logotipo o mais rápido possível – o trabalho foi feito apenas para fins de demonstração.

É possível refinar mais – a relação do bo pode melhorar, a construção e terminação do m requer mais atenção, por exemplo.

A comparação entre original e resultado não deixa dúvidas: mais conhecimento, atenção e dedicação às curvas pode mudar um logotipo da água para o vinho. Ou da água para o Suco natural nesse caso.


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Para aprender mais:

Rodrigo Saiani é fundador da Plau e type designer. Suas fontes podem ser vistas em canais de televisão, plataformas de games, livros e sites pelo mundo.