Sobre pixels e gols contra – a tipografia da Adidas na Copa do Mundo Rússia 2018.

Anos 90. Infância da internet comercial. Pré-adolescência dos computadores pessoais (e também dos seus monitores, naturalmente). Ficamos íntimos do pixel, menor elemento de uma imagem digital (ou seja, um quadradinho de cor chapada nas telas). Nas telas de baixa resolução — e nos processadores 8 e 16 bit — esses quadradinhos ficam visíveis. Uma limitação que acabou virando recurso visual.

Ainda que já se passem quase duas décadas desde o fim do dos anos 90, o visual dos 90 permanece fresco na nossa mente: MTV; visual-grunge-Norvana unindo todas as tribos; emoticons por todos os lados; pop-ups descontrolados e os pixels lá escancarados.

A arte digital era o brinquedo novo das pessoas e o que não faltou foi experimentação com essa ferramenta (como quando você comprou ou ganhou seu primeiro computador e no Word passava mais tempo zapeando entre fontes do que escrevendo).

Sim, ela estava lá, inabalável como sempre. A tipografia, obviamente, fazia parte disso tudo. E não fugia do padrão visual da época: de um lado, precisava adaptar-se à limitação da tecnologia da época; do outro, sentia-se livre para explorar aqueles novos recursos.

Pula para os 2010s.

Os pixels continuam vivos e bem, mas há muito tempo já deixaram de ser um problema. A resolução das telas e capacidade de processamento dos computadores fazem com que não consigamos mais identificar pixels individuais, mas apenas imagens contínuas e bem definidas.

Pois bem, como dizem os franceses: “quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas”. É justamente no momento em que não precisamos mais lidar com esse elemento digital, que nosso fascínio por ele ressurge.

Hoje podemos manipular este elemento exclusivamente como um recurso estético e não mais um obstáculo técnico. Muito provavelmente você já reparou o quão comum tem sido encontrar peças gráficas (digitais ou não) que utilizando esse tipo de recurso. Não à toa nos deparamos com termos como “Vaporwave” e “Glitch art”, movimentos/técnicas que possuem como centro o uso do visual digital dos anos 90.

Imagem 1 - “Millennials are screwed”, matéria do HuffPost, um breve exemplo do retorno do 8-bit
Imagem 1 – “Millennials are screwed”, matéria do HuffPost, um breve exemplo do retorno do 8-bit

E o que a Copa do Mundo tem a ver com tudo isso?

Pula para 2018. A Adidas apresenta o kit das seleções para a Copa com uma particularidade: todos são inspirados em uniformes da década de 90 ou do fim dos anos 80. São elas: Alemanha; Argentina; Bélgica; Colômbia; Espanha; Japão; México e Rússia. Até a bola da Copa (também produzida pela Adidas) carrega essa estética.

Essa identidade também é aplicada nos clubes patrocinados pela Adidas, como Palmeiras e Flamengo, mas a Copa é, naturalmente, o momento de maior visibilidade do projeto.

Imagem 2 - James Rodriguez - 2018 / Valderrama - 1990
Imagem 2 – James Rodriguez – 2018 / Valderrama – 1990

Além de simular o design dos uniformes que estes times utilizaram na década de 90 a Adidas unificou este conceito através de mais um elemento: a polêmica tipografia pixelada.

É louvável da Adidas reconhecer a tipografia como uma das fatias importantes do design “macro” da marca para a Copa de 2018 (ainda que também gostássemos de ver cada seleção com uma fonte exclusiva), mas a intenção boa não foi o suficiente para produzir uma boa fonte.

Falamos que o pixel só é visível quando existe uma limitação técnica em jogo, certo? Portanto, se alguém tenta simular o design produzido com essas restrições, também tem que adotar algumas delas. No caso da tipografia da Adidas, eles adotaram o desafio de criar uma fonte sem curvas, sem diagonais e sem contraste (todos os traços da letra com larguras iguais). A ideia até faz sentido, mas não foi exatamente bem executada e a presença de diagonais nas letras resolveriam boa parte dos problemas.

Ainda temos que considerar que 2018 não só é ano de Copa, mas é ano de Copa na Rússia, então existe sempre a possibilidade do alfabeto da Adidas ter alguma inspiração também no alfabeto cirílico, que é geral é de muitos ângulos retos.

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Imagem 3 — Do jeito mais simples possível, o @sportsfonts_com resume bem o que tem de errado com essa fonte

Se você não conhece o jogador da imagem acima, tente adivinhar qual o nome dele, pelas possibilidades levantadas pelo tweet. Talvez até acerte no final, mas com certeza vai ficar com algumas dúvidas.

Imagem 4 — O curioso caso do atleta CAAAASCO
Imagem 4 — O curioso caso do atleta CAAAASCO

Agora pense: como desenhar uma letra ‘R’ sem utilizar traços diagonais? Difícil, não? Aliás, muitas letras são improváveis sem nenhum traço diagonal. Neste caso, o ‘R’ fica extremamente parecido com o ‘A’. Se já é difícil distingui-los numa foto, imagine tentar ler o nome deste jogador assistindo pela TV, com toda a movimentação do jogo.

Imagem 5 — OI MAAÍA — 77
Imagem 5 — OI MAAÍA — 77

Se você acompanha a seleção argentina sabe que a camisa acima não pertence ao craque OI MAAÍA e que tampouco ele carrega o número 77 (mas que parece, parece). Também sabe que apesar de não estar jogando lá essas coisas nos últimos anos, Dí María merecia um pouquinho mais de capricho no seu uniforme.

Ou seja, já deu pra perceber que o a dupla ‘D’ — ’O’ segue a ‘R’ — ’A’ no quesito legibilidade. A única diferença entre esses caracteres são os cantos recuados no ‘D’ em relação ao ‘O’, mas que não são o suficiente para torná-los distinguíveis à distância e em movimento.

Os numerais até que são o menor dos problemas desta fonte. Em geral eles possuem uma boa legibilidade, mas não no caso dos números 1 e 7. Mais uma vez a insistência em não usar diagonais atrapalha tudo. Veja a Imagem 3 e a Imagem 5. A única diferença entre o 1 e o 7 é a largura da horizontal (maior no 7). Mais uma vez dá pra dizer que não é suficiente para diferenciá-los à distância e em movimento.

Não precisa ir longe para entender como diagonais são aplicadas normalmente nesses números. Observe-os aqui na fonte desse mesmo texto qu está lendo. Veja como funcionam 1 e 7 legíveis entre si e como as diagonais poderiam salvar esses caracteres da Adidas.

Imagem 5 - Alfabeto completo
Imagem 5 – Alfabeto completo

Agora veja o alfabeto inteiro na Imagem 5 e note outros detalhes: se o ‘R’ é parecido com o ‘A’, o mesmo podemos dizer sobre o ‘B’. Eles são quase iguais. Além de ser parecido com o R, também é quase igual ao 8. Do mesmo modo, o ‘G’ e o ‘C’ também são quase iguais (isso poderia ser parcialmente resolvido com um traço horizontal na terminal do G).

O ‘M’ não é exatamente ilegível, mas também não é exatamente bonito. A haste do meio mais parece mais um acréscimo protocolar para diferenciá-lo do ‘N’ do que fato o desenho de uma letra particular (o mesmo vale pro ‘W’).

Imagem 6 - Conheçam o craque O2YU8A
Imagem 6 – Conheçam o craque O2YU8A

Lá no começo do texto você conseguiu imaginar um jeito bom de desenhar um ‘R’ sem diagonais? Agora tenta imaginar o mesmo para o ‘V’. A Adidas encontrou um jeito, só não dá pra cravar que é bom.

A tríade H-K-X parece que foi especialmente desenhada para confundir qualquer um. Já o ‘Z’ é o irmão menor no ’2’.

É bom deixar claro que essas são características são parte dessa fonte particular, mas que não necessariamente tipografias bitmap são ilegíveis. Elas inclusive foram parte importante do desenvolvimento da legibilidade em monitores e telas.

Um bom exemplo disso é o estúdio Emigre, conhecido por ser um dos primeiros do mundo a produzir fontes digitais. Algumas fontes pixeladas deles são comercializadas até hoje, como a Lo-res. A origem é a mesma da Adidas: baixa resolução. O resultado é completamente diferente e, é seguro dizer, melhor acabado. Obviamente a Lo-res foi pensada para outro propósito, mas ainda serve como comparação.

Imagem 7 - As limitações são praticamente as mesmas da Adidas, mas as soluções divergem em todos os aspectos
Imagem 7 – As limitações são praticamente as mesmas da Adidas, mas as soluções divergem em todos os aspectos

E se quisermos ficar só no assunto futebol, ainda temos o belo exemplo da fonte desenhada por Wim Crouwel para a camisa da seleção holandesa na Copa de 2014, que também não usa curvas, mas tem uma legibilidade muito melhor que a da Adidas.

E olha que ele era conhecido como “Gridnik” (o Sr. Grid, digamos), ou seja, podemos ter certeza que o desenho era extremamente rígido. Então a Adidas pode sabe que dá pra usar um grid inflexível e ainda ter um produto final legível (e bonito também, não devemos esquecer).

Imagem 8 - Case Crouwel
Imagem 8 – Case Crouwel

Resumindo: o pixel voltou com tudo, está em todos os lugares e não apenas em tamanhos minúsculos e invisíveis na sua TV HD. Eles estão em todos os lugares se fazendo serem vistos. Os anos 90 voltaram junto. Deixaram de ser brega. Você imaginava que tão cedo a internet do milênio passado viraria referência de design? Pois é, não precisa mais imaginar, porque essa década tá de volta com tudo.

Mas também é bom que se diga: no seu grande momento, no maior evento televisionado do mundo, o pixel amarelou: foi mal usado; passou vergonha. Pelo menos na parte tipográfica. Culpa da Adidas, que perdeu a oportunidade de fazer um golaço de letra.

Válter Vinícius Costa é formado em Comunicação pela UFRJ. Devorador de tudo o que é tipográfico.