Tipos da Copa

A cada 4 anos, equipes do mundo inteiro se reunem para o maior evento esportivo da Terra. Nos estúdios e agências pelo mundo, a competição é para ver quem vai criar a fonte da Copa.

26 letras (e algo a mais) para conquistar a taça.

Mesmo que não tenha notado, você provavelmente já teve algum contato com a tipografia Ducha, produzida pelo designer português Dino dos Santos. Talvez até não a conheça pelo nome, mas certamente reconhece seu pseudônimo: “a fonte da Copa”.

A fonte da Copa nada mais é do que a tipografia oficial do torneio, encomendada pela FIFA para ser um dos elementos que define a comunicação visual do evento e representar o país-sede.

Breve história tipográfica da Copa do Mundo

Para a Copa de 2014, o Brasil foi representado pela (polêmica) fonte Pagode. A fonte foi criticada por vários motivos: tem uma cara infantil; desenho inconsistente; contraformas (interiores das letras) “peculiares” e, naturalmente, tudo isso leva a uma legibilidade ruim.

Por exemplo, ela nem ao menos foi completamente usada em situações-padrão na FIFA: nos ingressos dos jogos, a fonte não foi aplicada.

Questões a notar na Pagode: pouco padrão nas terminações; o ‘z’ é um ‘s’ invertido; as contraformas são inconstantes e atrapalham a legibilidade dos caracteres; falta consistência na largura dos traços (veja como o ‘Z’ é muito mais pesado que o ‘Y’); irregularidade nos espaços negativos (veja o ‘m’ e o ‘n’); inconstância nas hastes; algumas letras parecem desequilibradas (‘R’; ‘B’; ‘h’; ‘w’).
Questões a notar na Pagode: pouco padrão nas terminações; o ‘z’ é um ‘s’ invertido; as contraformas são inconstantes e atrapalham a legibilidade dos caracteres; falta consistência na largura dos traços (veja como o ‘Z’ é muito mais pesado que o ‘Y’); irregularidade nos espaços negativos (veja o ‘m’ e o ‘n’); inconstância nas hastes; algumas letras parecem desequilibradas (‘R’; ‘B’; ‘h’; ‘w’).

O projeto foi tão polêmico que até a palavra “Pagode” criou confusão. A FIFA tentou reivindicar propriedade intelectual sobre o nome desse gênero musical tão caro ao brasileiro, mas tudo não passou de um mal entendido: a restrição de uso se referia ao nome da fonte e não à palavra em absoluto. Bom, se por um lado Pagode tava proibido, do outro a sofrência rolou solta e todo mundo sabe como aquela Copa acabou pra nós (algum tipógrafo de plantão pode até dizer que foi um desfecho merecido para quem botou uma fonte dessa no mundo).

Na Copa da África do Sul, em 2010, abordagem tipográfica parecida foi utilizada (embora não tenha criado confusão com seu título). Letras irregulares; casuais; supostamente receptivas e simbólicas do espírito sul-africano. Provavelmente mais do que simbólicas do espírito brasileiro e sul-africano, as fontes Pagode e SAF são simbólicas da inabilidade da FIFA em criar identidades adequadas para países não-europeus.

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A fonte das Olimpíadas do Rio – Dalton Maag

Um bom exemplo de tipografia para representar um desses países foi o caso da Rio 2016. O logotipo das Olimpíadas e Paralimpíadas desenhado pela Tátil Design foi expandido para uma fonte pelo estúdio britânico (com equipe brasileira) Dalton Maag. A fonte super bem desenhada serviu ao propósito de captar o espírito da cidade (notou como as letras ‘n’ e ‘m’ lembram o calçadão de Copacabana?) e ser perfeitamente funcional para uso nos materiais de comunicação, promocionais, sinalização (dentro e fora dos estádios) e para acompanhar os pictogramas de cada modalidade presente no torneio.

De novo na Copa do Mundo, outra forma de entender a situação é pela identidade visual da Copa da Alemanha, em 2006. Independente da escolha ser boa ou não (ela também não é unânime), a tipografia de aspecto techno tenta retratar um país de olho no futuro, enquanto Brasil e África do Sul não ganharam a oportunidade de se apresentarem tão ~pra frentex~ assim. Ao mesmo tempo, tiveram de aceitar uma visão simplista das suas características históricas e culturais.

Voltando à Russia…

A Ducha surgiu a partir do logotipo oficial da Copa, desenvolvido pela agência portuguesa Brandia. As letras que acompanham o emblema foram expandidas para uma fonte pelo estúdio Adotbelow, também português.

A tipografia para a Copa da Rússia adota uma abordagem mais refinada do que a das edições anteriores. A Ducha é marcada curvas exuberantes. Ainda mostra algumas particularidades interessantes, como o fato pouco comum de que o ‘A’ maiúsculo tem a mesma estrutura do minúsculo.

Assim como o emblema, as letras tentam retratar a Rússia como uma “terra mágica” e identificada por sua cultura espacial (não à toa, o logotipo foi apresentado oficialmente pela primeira vez na Estação Espacial Internacional).

Se a Alemanha em 2006 precisava demonstrar ter rompido com o seu passado de guerra e apresentar uma identidade que se mostrasse simpática e focada no futuro, a Rússia em 2018 escolhe retornar à sua história.

Tente imaginar imagens clássicas da Rússia e provavelmente terá pensado em cartazes construtivistas de tipografia geométrica e firme, que simboliza uma tomada de posição popular pela construção de uma nova sociedade (e também uma nova arte). Pule para 2018 e vemos que esses eventos foram re-imaginados de maneira um tanto quanto onírica e idealizados para mostrar um país “dos sonhos”. Resumindo: o geométrico cede espaço para o orgânico e a firmeza abre alas para a receptividade.

Aqui a analogia com o caso da Alemanha é clara: a ideia de que pra receber o mundo em seu país, deve se apresentar como “simpático”. Ao mesmo tempo, ainda que seja feita para comunicar-se com bilhões de pessoas do mais diversos países, a tipografia deve ser um elemento representante do país-sede.

O que se mantém igual em 2006, 2010, 2014 ou 2018 é o caráter “display” da tipografia da Copa. Elas servem mais para composição de títulos do que para a leitura de textos longos. Quando vir um material promocional da Copa, note: é quase certo que mesmo que o título virá esteja escrito na Ducha, qualquer outra frase que o acompanhar provavelmente estará composta em outra fonte (o mesmo acontece com as figurinhas da Copa: veja como as letrinhas pequenas do verso não são escritas com a Ducha). Já o ingresso dos jogos utiliza a fonte nas informações centrais (seleções, data, horário), mas não nos textos menores.

Mais uma comparação interessante entre referências russas é analisar o da Copa ao lado do novo logo turístico da Rússia, lançado no início de 2018 como ferramenta oficial do governo para incentivar o turismo no país. A inspiração que deu a origem a este desenho também é bastante russa (tal qual a corrida espacial): o movimento artístico conhecido como “suprematismo” liderado por Kasimir Malevich na primeira metade do século XX.

Porém, no final das contas, é possível dizer que o logo turístico da Rússia é até menos turístico que logo da Copa da Rússia. Isso porque o logo da Copa precisa gerar um reconhecimento mais imediato do país pelo público. Já o logo turístico se permite fazer uma referência um pouco mais sutil às suas origens, além de precisar ser adaptável a uma quantidade maior de usos.

45 do segundo tempo, pra resumir:

A fonte da Copa deve servir mais a ilustrar os materiais gráficos e fortalecer a identidade visual da Copa do que ter ser funcional o suficiente para passar todas as informações relevantes do evento. Por esse motivo, a fonte não possui variações de peso ou de estilo (bold e itálico não parecem ser opções tipográficas para a Copa do Mundo).

O logo oficial da Copa de 2018 foi lançado em 2014 mas, naturalmente, apenas à medida que a Copa se aproxima mais uma vez é que o público passa a receber uma quantidade vasta de materiais que fazem uso dessa identidade. E assim que a Copa tem seu apito final, todas essas peças de comunicação viram apenas lembrança. Justamente por isso, a tipografia é um dos elementos mais centrais de identificação do evento e, se bem aplicada, pode superar sua “data de validade” e se fixar por muitos anos na memória do público.

O próximo país a ter que se preocupar com isso é o Qatar, sede da Copa de 2022. Desde já estamos ansiosos em ver como sua identidade fará uso da rica história visual da tipografia árabe.

Prorrogação: Saiba Mais

Ainda no tema “fontes para futebol”, leia o estudo de caso (em inglês) da fonte 90 Minutes desenhada por Tal Leming para as seleções de futebol dos Estados Unidos. Com ela fica fácil de entender a diferença de um projeto a longo prazo, pensado para durar por vários anos: note a quantidade de variações de peso e estilo da 90 Minutes, além da sua personalidade presente, porém discreta.

Válter Vinícius Costa é formado em Comunicação pela UFRJ. Devorador de tudo o que é tipográfico.